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  • Giu Domingues

#6 | P., o Músico

O P. entrou na minha vida do jeito que as melhores pessoas entram: por meio de uma pessoa que eu amava (e ainda amo).


Ele era melhor amigo da minha melhor amiga - Nana, que vai ser madrinha do meu casamento e potencialmente dos meus filhos - e portanto, para uma jovem de 14 anos, ele tinha o melhor selo de aprovação do mundo. Qualquer um que a Nana amasse só podia ser boa pessoa, pensava eu, e foi nesse contexto que eu conheci o P.


A primeira coisa que você tem que saber sobre o P. é que ele era muito legal. Mesmo. A Nana não tinha mentido quando disse que eu e ele tínhamos tudo a ver, mas quando eu o conheci eu não entendi que ela estava falando de um potencial interesse romântico: eu estava um pouco cansada de potenciais interesses românticos, na verdade. Eu queria um amigo, alguém com quem eu pudesse falar de McFly (minha banda preferida), Harry Potter (meu livro preferido) e Disney (minha não tão secreta obsessão).


Ele era tudo isso, e mais. Ficamos amigos quando a Nana chamou nós dois pra sua casa em Campos do Jordão, e as memórias que eu tenho daquele fim de semana tem gosto de pipoca, cheiro de pinheiros e lareira acesa, e estão ao som do The Corrs - banda preferida do P. Nosso relacionamento - mesmo antes de ser um relacionamento - foi ao som de pop com influência irlandesa da banda que eu desconhecia, mas se tornou uma das minhas preferidas.


Oh-oh, oh-oh... Leave me breathless.


Ele sabia cantar "Corações Infelizes' de cor, ele amava jogar Lobisomem. Ele era engraçado e irônico e inteligente. Eu gostei de tudo isso, e ele gostou de mim, também: nossa amizade não propriamente nasceu tanto quanto explodiu do jeito que só acontece quando você tem 14 anos. Mas mais do que tudo isso, você tem que saber uma coisa: o P. tocava violão.


Eu e a música flertávamos, mas eu só fui conhecer a música mesmo quando eu conheci o P. Há poucos caminhos tão efetivos para o coração de uma adolescente do que um cara bonito com um violão - mais do que isso, um cara que toca pra você cantar.


Naquela viagem de Campos, um fim de tarde ficamos só eu e ele, sentados no balanço que dava vista para a Pedra do Baú. O dia caía em tons de vermelho e laranja, e enquanto eu olhava a vista em um silêncio atípico, o P. olhou para mim. Ele fez um retângulo com os dedos, e apertou o clicker de uma câmera invisível.


Eu perguntei o que ele estava fazendo e ele disse que queria lembrar daquele momento pra sempre.


Eu não sei se ele sabe ou se ele lembra... Mas eu lembro.

Acho que foi aí que eu me apaixonei.

O P. estudava em outra escola, mas o MSN permitiu que a nossa amizade evoluísse no ritmo das nossas músicas preferidas. Acho que foram poucas as pessoas com as quais eu conversei tanto no MSN quanto ele - exceto o S., cuja história fica pra outro dia. A gente inventava apelidos um pro outro (ele era o Triângulo Equilátero e eu o Triângulo Isóceles, ou alguma coisa assim que era muito engraçada em 2007). Como eu já disse, ele era muito legal, o que fez com que ele fosse rapidamente absorvido pelo nosso grupo de amigos. A Nana apresentou ele pra todo mundo - pra Maria, pra Gi, pro Renato outras pessoas - e era muito difícil não gostar dele.


Nessa época eu era apaixonada por ele, mas estava em constante negação: eu repetia para quem quisesse ouvir que a gente só era AMIGO! AMIGO OUVIU BEM???


Mas de novo, veio a música pra me desafiar.


Como eu disse, o P. tocava violão - e isso me fez descobrir que eu podia cantar. Todo mundo sabia que eu gostava de cantar, mas o P. queria ouvir minha voz. Ele pedia para me ouvir. Com 14 anos, a única pessoa até então que tinha me pedido para cantar tinha sido minha mãe (na frente de estranhos). Então, eu cantava para ele - qualquer coisa que ele quisesse.


A gente começou uma banda. Eu cantei "Daughters", do John Mayer, numa apresentação da escola dele - enquanto ele tocava o violão do meu lado. Até música junto a gente escreveu.

(perdão pelo nível de CRINGE que é esse vídeo)


I hope you won't be sorry when the morning light seams

I hope you have the courage to run after you dreams

I hope you won't forget me, I hope you will be fine

But after all it's hoping, and who decides is time


I want you to remember places we have been

Some of them will vanish all along with me

And when you're on the edge of crying

And I am on the edge of going

Remember what I said don't worry


I'll always be at your side

What we have is differential,

Brings me back is so essential

If you need me call me twice

I'll be hearing from a distance

There's no need to fret 'cause I'll be there


Até aquele momento na minha vida, a música era uma paixão secreta - tanto quanto minha paixão pelo P. Mas quanto mais ele tirava o canto de mim, pouco a pouco, minha paixão por ele foi ficando menos secreta também.


Eu já tinha aprendido a ter coragem. Tinha aprendido a ir atrás do que eu queria com o G., e aprendido que alguém podia me querer de volta com o GR. E aí, munida dessa certeza toda - e do maior medo que meu coração de 14 anos podia aguentar - eu me declarei via MSN, dizendo que não queria mais só ser amiga dele.


E sabe o que ele disse? Que ele também não.


'Never gonna stop falling in love with you...

O nosso namoro mudou tudo.


Acho que era óbvio pra todo mundo menos nós dois que isso ia acontecer. De repente, todos os nossos amigos tinham opinião sobre a gente - se o P. gostava ou não de mim, se era namoro de fachada ou não, se a gente não era só amigo. Nossas amigas gostavam muito dele, e olhando em retrospecto eu penso que havia um crush quase generalizado nele (todo mundo tinha a paixonite no P., menos a Nana) - o que contribuiu para o nível de drama daquela época. Afinal, não era só o meu coração o suscetível a um menino bonito que tocava violão.


Ainda assim, eu achava que o "tudo" que ia mudar envolveria ao menos uns beijos - se você é leitor desse blog deve se lembrar que o GR. só tirou o meu BV, e não o meu BVL (ainda se fala BVL??? Para os não versados, BVL é "Boca Virgem de Língua").


Ledo engano do meu coração.


Apesar de tudo mudar, o meu BVL continuou exatamente igual: eu ia para a casa do P., a gente ensaiava as músicas da banda, se via nos fins de semana em meio a todas as nossas amigas... E nada de beijo de língua. Nada.


O nosso primeiro (e único) beijo, ao menos do qual eu me lembro, foi numa festa junina do Santa Cruz, quando ele arriscou um selinho rápido que deixou meus lábios queimando e meu coração em polvorosa. Eu tinha medo - medo de mudar ainda mais o status quo e perder o meu amigo, medo de ter interpretado tudo errado. A única coisa que eu queria era que ele me amasse do jeito que eu amava ele - e eu não sei, até hoje, se isso é de fato possível.


Por mais amor que haja em um lugar.


What can I do to make you love me What can I do to make you care What can I say to make you feel this What can I do to get you there…

Quando a gente começou a namorar, eu fiz o P. me fazer uma promessa: se a gente um dia fosse terminar, que não fosse por MSN. A gente era muito amigo, e das coisas que eu tinha levado das minhas últimas empreitadas românticas uma delas era a certeza de que eu valia mais do que uma simples tela no computador. Eu merecia alguém que pudesse ser sincero comigo, frente a frente.


Mas eu acho que sinceridade nunca foi o forte do P. no nosso relacionamento - por mais amigo que a gente fosse, e talvez até por causa disso. Ele não queria me magoar. Ele não tinha intenção de me magoar.


Ainda assim, nenhuma intenção ou promessa poderia ter me protegido do fatídico dia em que ele entrou no MSN para me dizer que na verdade ele era apaixonado pela Gi, nossa amiga em comum. Que ela gostava dele, também. E que nessa equação, nesse triângulo nada equilátero...


A ponta solta era eu.

Mais uma vez, a música veio me resgatar.


Durante dois meses eu dormi com meu iPod plugado em um som ao lado da cama, tocando todas as nossas músicas. A trilha sonora de Moulin Rouge. As músicas tristes do McFly.


Especificamente, essa música.

Don't let yourself go Cause everybody cries And everybody hurts Sometimes

Sometimes everything is wrong

Now it's time to sing along


Se nosso namoro mudou tudo, eu não queria que nosso término mudasse nada: mesmo que ver ele ao lado da Gi doesse no meu coração, especialmente quando eles se beijavam e sorriam e se amavam. A gente era amigo. Eu só queria nossa amizade de volta, eu queria desfazer a música que ainda tocava no meu coração quando eu olhava pra ele.


O mais difícil era ver que todos os questionamentos que as pessoas fizeram sobre eu e ele sumiram quando ele apareceu com a nova namorada. Era difícil perceber que eu sempre tinha sido a segunda opção, mesmo quando eu fui a última a perceber. Era difícil ver exatamente o que eu tinha desejado por tantos meses se desenrolar bem na minha frente, com outra pessoa que não era eu.


Doeu. Doeu, por quê ele tinha sido - era? - meu amigo. Doeu, por quê ele tinha sido a minha trilha sonora, a minha música - mas ele estava tocando para outra pessoa.


E ai... Aos poucos. Sem pressa. Com a ajuda da Nana, e das letras de música que eu escrevia copiosamente no meu caderno - sozinha, dessa vez...


...A música se desfez. Ela deixou de ser do P., e se tornou minha.

A gente voltou a ser amigos. Não foi do nada, e não foi como antes. Mas eu descobri em mim a música - a minha música, a minha melodia, que não precisava do violão dele pra tocar. E eu disse pra mim mesma que eu não ia, nunca mais, deixar alguém que não me preferia em primeiro lugar no meu coração.


Por sorte, ainda tinha uma música do The Corrs pra me ajudar com essa última parte.


And when you go I will remember To send a thank you note to that girl, oh that girl I see she's holding you so tender Well I just want to say Just want to say

I never really loved you anyway No I didn't love you anyway I never really loved you anyway I'm so glad you're moving away

Gostou? Eu também falo merda pelo Twitter no @giuldom. Em breve, tem mais Coração Partido.

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