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  • Giu Domingues

#5. | GR., o Recíproco

O GR entrou para o meu colégio na quinta série e mudou minha vida.


Ele veio transferido de outro colégio com mais um grupo de meninos, e todos eles eram tão diferentes dos meninos que eu conhecia que eu tive que prestar atenção. Mais que isso: eu era uma romântica incorrigível de 12 anos, e portanto isso significava que qualquer garoto que entrasse na minha órbita era um potencial amor-pra-vida-toda. Assim, com hífens e sem espaço para nuance.


Se você acompanha esse blog, deve lembrar que até então eu não tinha tido muito sucesso - ok, nenhum sucesso - nas minhas empreitadas românticas. Em retrospecto, tinha menos a ver com os objetos de minha afeição e muito mais com a minha capacidade de escolher sem muito critério. Meu coração era inexperiente e ousado, e não tinha tempo para acertar o alvo antes de atirar sua flecha. Eu queria amar, e não importava muito quem.


Tudo isso mudou quando eu conheci o GR.


Ele era grande e desengonçado e usava óculos e era muito, muito inteligente - talvez sua característica mais importante. Ele não tinha os cachinhos do R., o sorriso fácil do M., os sonhos ambiciosos do A., a franjinha do Justin Bieber do G. Minhas amigas inclusive achavam que ele era esquisito, um peixe fora d'água no aquário esnobe que era o Santa Cruz.


Mas ele era o número 19 na chamada, e eu o 18, e por isso a gente acabou pareado em algum exercício e quando a gente conversou...


O GR. era inteligente, mas mais do que isso: ele me dava espaço para ser também. Eu, que sempre tinha vestido a minha esquisitice como um manto protetor, de repente tinha espaço pra ser esquisita do lado dele. Ele gostava de rock e Senhor dos Anéis e aulas de história. Ele devorava livros na mesma velocidade que eu, e dividia o fone de ouvido para eu escutar Led Zeppelin com ele. A música preferida dele era Stairway to Heaven, e eu ainda lembro dele - mesmo que fugazmente - quando escuto os primeiros acordes.

Não demorou muito para as brincadeiras começarem.


Para manter a confidencialidade, eu não posso contar exatamente qual foi a brincadeira que os babacas da sala resolveram fazer - mas digamos que era extremamente quinta série e usava o nome de dois calendários (sendo um deles o calendário Juliano) para constranger a gente.

O GR. se importava, mas eu, no fundo, queria que fosse um pouco verdade. Pela primeira vez na minha vida, alguém olhava pra mim - pra mim mesmo, estranha e nerd e intensa - e gostava do que via. Pela primeira vez minha paixonite não era eu olhando pela janela, suspirando por alguém que achava que eu era invisível.


Sim, por quê o GR. começou a gostar de mim.


Eu soube pelo Renato, melhor amigo dele e que também tinha sido transferido da mesma escola. A gente conversava por MSN todos os dias naquela época, e quando o Renato me contou que o GR. gostava de mim foi como se uma onda passasse por mim. Onde antes só tinha eu, agora havia uma pessoa nova - que pela primeira vez tinha sido vista por alguém.


Quem me ajudou a perceber que eu também gostava dele foi a Carol, uma das minhas melhores amigas da época. Eu passava as aulas das quais não gostava desenhando - e naquele dia, não quis mostrar meu desenho pra ninguém. Mas a Carol viu, e quando ela me perguntou por quê eu tinha desenhado eu e um cara alto de óculos se beijando...


Eu dificilmente consegui negar.


Naquele dia, eu sentei na frente do computador e meu corpo inteiro formigava. Eu me lembro bem daquele cantinho do meu quarto, o modem apitando como um passarinho eletrônico e a ventoinha do PC antigo fazendo parecer que o negócio ia levantar vôo. Assim que eu liguei o MSN, eu mudei meu subnick para um pedaço da letra de Stairway to Heaven - "There's a lady who's sure / All that glitters is gold..."


Foi a isca perfeita para fisgar um peixe fora d'água chamado GR.


Ele me pediu em namoro naquele dia, e eu disse sim - por MSN, como era de se esperar com dois nerds tímidos, mas apaixonados.


Alguns dias depois, fomos juntos na nossa primeira festa como namorados. A Carol morava perto do GR. e os pais dela deram carona para ele - e foi ela que fez eles pararem num canteiro para ele pegar uma flor para mim. Quando eu o encontrei na festa, meu coração pareceu que ia dar um salto mortal. Toda a conversa fácil entre a gente morreu, e deu lugar a uma antecipação clara e simples que ficava muito mais difícil de encarar ao vivo do que no MSN:


Será que ele gosta mesmo de mim?


O GR. respondeu essa pergunta sem palavras. Ele me puxou pela mão, me levou até a lateral da casa. Ele olhou nos meus olhos, e tirou os óculos que estavam embaçados pelo calor, e se inclinou sobre o meu rosto...


E encostou os lábios nos meus.


Ele não avançou - acredito que sua natureza tímida tenha impedido qualquer risco, especialmente o tipo de risco que envolve língua - mas o beijo teve gosto de fim de infância, de maciez e carinho e algo para o qual eu ainda não sabia dar nome.


Aquela foi a única vez que a gente se beijou.

A coisa que eu mais queria era dar mais alguns daqueles beijos. A coisa que o GR. mais queria, aparentemente, também era.


Mas por algum motivo, a gente não conseguia transformar esse desejo - conversado à exaustão em papos no MSN - em uma realidade concreta, especialmente quando a gente só se encontrava na escola.


Isso não era estritamente verdade: ele me convidou para conhecer a casa dele, e embora eu não me lembre de como ela era eu lembro do seu irmão mais novo, da sua mãe que me amou e me pediu pra ir almoçar lá mais vezes. Mas eu não me lembro de nenhum outro beijo, por mais que eu me esforce.


Aos poucos, mesmo andar de mãos dadas era impossível - visto que as piadinhas da quinta série só aumentaram depois que a gente começou a namorar. Sim, a quinta série é território inóspito para um par de crianças nerds que estão começando a entender o que é amor.


Ainda assim, eu quis tentar. Eu sentia falta até mesmo da nossa amizade, que parecia só existir através da tela do MSN, e minguar em qualquer oportunidade que a gente tinha de se ver ao vivo.

Aos poucos, eu fui tentando achar motivos pra ele prestar atenção em mim. Me lembro até hoje da nossa maior briga - obviamente, por MSN - quando eu disse que toda música de rock era barulho; inclusive a grande musa da vida dele, a Stairway to Heaven. Meu subnick, que tinha ficado estacionado na letra da música, subitamente mudou para alguma referência de Harry Potter. Eu queria, a qualquer custo, saber que ele se importava comigo, mesmo que isso significasse machucá-lo de alguma maneira.


(Eu tinha só 13 anos).


Aos poucos, a gente só era namorado no papel: a vida real era feita de encontros estranhos no recreio, os dois se evitando por quê era muito difícil desfazer o nó que a gente tinha atado naquele primeiro beijo.


Eu amava o GR. Eu acho que ele também gostava de mim. Mas embora a gente tivesse tudo a ver, embora no papel - e no calendário - a gente fosse perfeito, a realidade era um pouquinho diferente.


Não foi muito surpresa pra mim quando ele me chamou no MSN num dia qualquer, e me disse que não gostava mais de mim. Ele completou dizendo que estava afim de uma outra pessoa - uma tal de Kate Beckinsale.

A Giu de 13 anos jamais teria chance alguma contra a Selene.

E assim nosso namoro acabou - eu, com um coração partido e a certeza de que nunca encontraria alguém que me amasse de novo; mesmo que fosse só pelo MSN.



Muito tempo depois, quando eu já estava na faculdade, eu fui olhar o perfil do Facebook do GR., com alguma curiosidade para saber o que aquele menino nerd, alto e gordinho tinha se tornado.


Eu não fiquei surpresa ao ver que ele tinha crescido dentro da sua estranheza e se tornado um cara bonito - descolado, até - que abraçou sua nerdice e seu amor pela inteligência. Ele não namorava a Kate Beckinsale, mas a julgar pela garota sempre ao lado dele nas fotos, tinha achado alguém que ele amava na vida real, e não só através de uma tela. Ele também aparentemente continuava amando Led Zeppelin. Acho que tem amores de pré-adolescência que a gente carrega pra vida inteira.


É difícil explicar a satisfação que eu senti ao ver que, no fim de tudo, eu tinha tido razão. Eu sempre soube que ele era charmoso, e doce, e gentil - mesmo antes de qualquer pessoa no mundo ver isso. Na verdade, eu acho que foi essa a lição que eu tirei desse coração partido: ele também tinha visto algo em mim, algo que estava lá mesmo quando eu era um patinho pré-adolescente e feio, sem traquejo social, sem nem ao menos uma personalidade completa ainda. Ele me viu, e ainda assim gostou de mim.


Mesmo que ele tenha terminado comigo por MSN pra ir atrás de uma atriz de Hollywood, ele me deixou com um presente: a certeza de que eu era amável, para alguém. Que alguém ia me querer, com a esquisitice e a estranheza.


Que alguém me via como eu era, e gostava do que via.


Não é por isso, afinal, que a gente se apaixona e se deixa amar? Para que alguém nos veja por inteiro, e nos aceite?

Eu não sei se é pra todo mundo, mas era para mim. E quem me deu esse presente foi um garoto desengonçado, de óculos fundo de garrafa e um coração que foi meu, mesmo que por um segundo.


Além de tudo, ele me apresentou ao Led Zeppelin. Se todo o resto fosse inútil, esse pelo menos seria um bom legado.

Gostou? Eu também falo merda pelo Twitter no @giuldom. Em breve, tem mais Coração Partido.

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