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  • Giu Domingues

#4 | G., o Popular

Updated: Oct 7, 2020

Eu sempre nutri, durante a minha vida, amores que não me amavam de volta.


Primeiro foi a dança. Desde pequena eu queria fazer balé, mesmo com meus dois pés esquerdos. No jazz eu encontrei um meio do caminho, e ainda assim a professora me colocava no fundo da sala, de onde os pais não pudessem ver o desengonçamento constante.


Depois foi o teatro. Ensaiei filmes inteiros no meu quarto, fiz audições pros meus primeiros participarem das minhas peças de teatro - e nunca enchi mais do que o quartinho da casa da minha avó, onde os meus tios pacientemente assistiam à reencenações dos filmes da Disney ou desenho preferidos.


De longe, o maior desses amores desquitados foi o G.


O G. era muita areia pro meu caminhãozinho. Falo com a consciência de que ninguém é verdadeiramente um caminhãozinho lá pelos seus 10, 11 anos: a gente é, no máximo, um triciclo torto. E eu era o mais torto dos triciclos tortos, a pré adolescência chegando pra ficar e me dando um revertério em forma de espinha demais e estilo de menos. Algo a se dizer é que eu era ciente disso: admirava o G. de longe, preferindo nunca me fazer notar pelo garoto mais popular da minha sala. Até hoje eu lembro o número dele na chamada: 33, logo depois do meu (que era 31). Era a coisa mais próxima que a gente chegava de uma conversa.


Ao invés de conversar com ele, eu o observava. Todo recreio, religiosamente, eu arrastava uma amiga pra arquibancada do campão e lá me punha, passando a minha única meia hora de liberdade vendo o G. jogar futebol. Um exemplo da minha devoção, visto que até hoje tenho preguiça de futebol (e qualquer jogo com bola).


(Menos basquete, embora talvez o número 5 dessa lista tenha arruinado basquete pra mim).


Eu tinha certeza de que o G. nunca ia me notar. Ele era lindo daquele jeito de garoto de 11 anos, alto e desengonçado e com uma franja de Justin Bieber castanha sempre caindo na cara. Não importava. Nos meus cadernos eu escrevia G+G 4 EVER e sonhava com o dia em que eu ia criar coragem pra dizer pra ele que gostava - gostava - dele.

Esse dia chegou na festa Hippie da L. Abreu.

guta.bauer@increasy.com.br

Posso dizer que se uma experiência une as crianças da classe média de Pinheiros em 2003, essa experiência é a festa Hippie. Festa temática no geral tinha presença cativa nas celebrações, mas a festa Hippie - que evocava um tempo que a gente nem ao menos conhecia - era uma ótima oportunidade para os pais (que financiavam as festas) colocarem músicas da sua época, fantasiarem as crianças com seus acessórios antigos e se divertissem em meio ao gelo seco e pulseirinhas neon da 25 de Março. E se tinha alguém que estava competindo pelo título de melhor festa Hippie de 2003, essa pessoa era a L. Abreu.


Começa que o convite da festa era um CD, as informações da festa impressas em um sticker furado e colocado na capa do dito cujo. As músicas do CD pirateado? Todas que iam tocar na festa - incluindo as dos anos 70.


Depois que a casa da L. Abreu era um acontecimento por si só. Tinha que ser, já que ela convidou a terceira série inteira pra festa Hippie. Eu cheguei cedo, de braço dado com a minha melhor amiga na época, arrumada até o último fio de cabelo como uma autêntica Hippie de 2003: headband no cabelo trançado, calça boca de sino e patches de flor, um coletinho de franjas e um óculos de sol com lente colorida (vale notar que a festa Hippie era à noite). Mas o mais importante do meu look era sua pièce de resistance: uma tamanca branca cheia de tachas.

Imagem meramente ilustrativa; meu tamanco não era da Chanel.

Eu não sei quem inventou o tamanco, mas estava inspirado - e naquele dia, eu era apenas uma garota agradecida. O tamanco combinava perfeitamente com o resto do meu look: totalmente descabido, mas charmoso à sua maneira - à maneira de uma garota nerd de 11 anos.


Nã o sei se foi o tamanco, a festa Hippie, o fato de que a minha maior rival, a F.K., estava conversando com o G.: naquela noite, eu decidi que ia falar com ele e contar o que eu sentia. Por sorte, eu e meu tamanco tivemos a chance perfeita: a brincadeira da Cinderela.


Aqui, cabe um parênteses. Nas festas Hippie de 2003 (e na verdade, em qualquer festa de criança leite com pêra de 2003), a festa era dividida entre Música Rápida e Música Lenta. Se a Música Rápida era pra agitar o começo da festa, era na Música Lenta que acontecia a ação: quando as cartas eram mostradas e quem queria dançava lento com o objeto de sua afeição. Geralmente no meio da festa, a música lenta vinha pra ficar: meu objetivo era alcançar aquele momento com o G.


Só que quando você tem 11 anos, você não pode simplesmente pedir pra dançar lento. É aí que entra a brincadeira da Cinderela. Funciona assim: todas as meninas tiravam um dos seus sapatos e colocavam num monte no meio da pista de dança (a fogueira do chulé). Sem ver, os meninos escolhiam um dos sapatos - e tinham que dançar lento com a dona do outro sapato do par. Claro, você só dançava com quem você queria caso a pessoa pegasse o seu sapato. Alguns diriam que essa seria a hora do destino agir.


Não eu: eu não estava prestes a dar chance pra destino nenhum. Eu e a minha tamanca íamos fisgar o G., de um jeito ou de outro.


Assim que o morro de sapatos estava completo e o G. se aproximou, eu já fui pro ataque. Eu sabia que a minha tamanca não ia me deixar na mão, e já fui logo apontando pra ela - um diamante branco no meio da pilha.


"Por quê você não pega aquele ali?"

O G. olhou pra mim como quem olha um alien.

"Pode ser. Você sabe de quem é?"


Silêncio. Eu era uma mulher enigmática, cheia de segredos.

"'É seu?"


Ainda dava tempo de fugir. Aqui, confesso, minha coragem vacilou - e foi nessa hora que o danado do destino interviu, sabendo que eu não merecia ficar sem minha dança lenta na festa Hippie.


"É."


O G. pegou o meu tamanco, e lá fomos nós dançar.

Eu já quero justificar o que vem em seguida com uma confissão: aquela foi minha primeira dança lenta. Ok, não é o ápice do romance: os braços do G. estavam mais esticados que uma vara de pescar, as mãos rígidas quase sem encostar na minha cintura. Mas a verdade é que a eu de 11 anos nem sentiu: a única coisa que eu sabia era que o garoto mais popular da terceira série estava com a mão na minha cintura, olhando pra mim enquanto tocava Behind Blue Eyes. E se na música ninguém sabia o que era estar por trás de olhos azuis, eu sabia: naquele momento era a melhor coisa do mundo.


Por isso mesmo não dá pra me culpar pelo que veio depois... E o que veio depois foi o mais espetacular vômito de palavras já visto na casa da L. Abreu.


(Quer dizer, eu não sei como são os pais dela, mas imagino que menos dramáticos do que eu).


"G. Posso te contar uma coisa?"

"Pode." Não que ele tivesse alguma escolha.

"Vocêélegalemuitolindoebomnofutebol....Eu gosto de você."

(Tum-tum)

(Tum-tum)

(Tum-tum)


E ai, o G. disse a coisa mais garoto-de-onze-anos-popular do mundo:

"Eu sei."


(Tum-tum)

(Tum-tum)

(Tum-tum)

(Tum-tum)

"..."


Só que então... Ele disse outra coisa.

"Eu também gosto de você."


Como podem, cinco palavras serem capazes de desacelerar o tempo mais do que uma música lenta? Como pode um coraçãozinho de 11 anos se sentir o único coração do mundo?


Eu não sei como pode. Só sei que aconteceu, e eu sabia que se deixasse aquele montão de areia ir embora, ele ia perceber que era demais pro meu caminhãozinho (ou triciclo torto). Antes que ele pudesse dizer alguma coisa, eu perguntei.


"Quer namorar comigo?"


Eu sempre fui uma garota arrojada.


Ele disse sim.

O G. foi meu primeiro namorado - e naquela primeira semana de namoro, não só nosso namoro mas primeiro namoro da minha vida, eu fui simultaneamente a pessoa mais feliz e mais confusa do mundo.


Ah, todo mundo sabia que a gente estava namorando. A história espalhou que nem fogo de palha pelos corredores da terceira série, e todo mundo veio me perguntar se era verdade que eu tinha pedido o G. em namoro. Eu não tinha razão pra mentir, embora o fato de que nada tivesse mudado me deixasse com um pouco de pulga atrás da orelha.


A gente tava namorando, né? Mas nada tinha mudado. A maior conversa que a gente tinha ainda era a chamada no começo de cada aula, e eu ainda passava o recreio sentada na arquibancada, vendo ele jogar - esperando ele me notar.


Na época eu levava o meu diário pra escola (decisão que continuou por um bom tempo e culminou em uma das maiores estupidezes da minha adolescência). Era um caderno cor-de-rosa da Alice no País das Maravilhas, onde histórias da minha vida se mesclavam com as histórias da minha cabeça. Naquela semana, as páginas eram todas dedicadas ao G.: por quê ele não queria conversar comigo? Por quê ele não tinha me dado um selinho? Por quê ele me evitava no corredor?


A gente tava namorando, e isso era ótimo. Mas será que ele nunca ia querer andar de mão dada comigo?


Será que eu consegui o rótulo, sem conseguir a afeição?


Talvez essa tenha sido minha primeira vez encontrando com um paradoxo curioso: tem gente que diz que gosta de você, mas não gosta gosta de você. Tem quem goste de ser gostado, e assim como o teatro e a dança, o G., aparentemente era um amor que não me amava de volta.


Por isso não foi nenhuma surpresa quando, uma semana depois do início do nosso namoro, o G. me chamou, meio sem jeito, até o bebedouro perto do 3A e me disse que não queria mais namorar.


O pé na bunda veio com aviso, mas não doeu menos por causa disso.


Naquele dia, eu voltei pra aula de História e desenhei uma coisa mais ou menos assim no meu caderno da Alice no País das Maravilhas:


À esquerda, eu, e à direita, o G. No meio, meu pequeno - e já mais sábio - coraçãozinho.

Eu não sei bem o que o G. me ensinou.


Durante minha vida, eu tive outros amores que não me amaram de volta. Não sei se nenhum doeu tanto quanto aquele menino que, num bebedouro de escola, me mostrou que não importa o quanto você gosta de algo ou alguém: não existe garantia de afeição ou sucesso. As coisas doem mais num coração novo e inexperiente.


Mas outra coisa que me ocorre enquanto eu lembro dessa história é aquela menina corajosa de tamanco branco, que viu uma brincadeira em que seu destino ficava nas mãos da sorte e resolveu tomá-lo nas próprias mãos. As coisas não deram muito certo pra ela, é verdade. Pelo resto da terceira série, eu passei meus recreios na arquibancada, pensando que meu coração não valia nada pro G. - e pra mais ninguém.


Ainda assim, eu custo em acreditar que eu não trouxe algo daquela noite - talvez a consciência de que minha coragem pode me custar alguns corações partidos, mas é o único jeito de enfrentar a vida.


É disso que eu me lembro quando conto essa história - disso, e do fato de que, graças a Deus, eu nunca mais usei aquela tamanca branca.


Sapatinho de cristal é pra donzelas em perigo - e o G. me ensinou que eu era muito além disso.

Gostou? Eu também falo merda pelo Twitter no @giuldom. Semana que vem, tem mais Coração Partido.




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